Pesquisadores da Universidade de São Paulo publicaram na revista científica Neurology estudo sugerindo que o consumo de alguns adoçantes artificiais (aspartame, sacarina, acessulfame-k, eritritol, sorbitol e xilitol) pode acelerar o declínio cognitivo, afetando a memória e a fluência verbal.
O estudo de coorte prospectivo incluiu 12.772 pessoas com média de idade entre 51,9 ± 9 anos e avaliou a ingestão dos adoçantes por meio de questionário de frequência alimentar semiquantitativo. O sorbitol foi o adoçante mais consumido (63,8 ± 69,1 mg/dia) e o eritritol o menos consumido (0,1 ± 0,2 mg/dia). A sucralose não foi avaliada no estudo porque só foi aprovada pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em 2008 (após início do estudo).
Os voluntários foram questionados sobre o consumo de bebidas alcoólicas, atividade física, diagnóstico de diabetes mellitus (DM), hipertensão arterial sistêmica, doenças cardiovasculares, depressão e histórico familiar de Parkinson. Os testes cognitivos foram avaliados antes e a cada quatro anos. Após 8 anos, os voluntários foram novamente questionados sobre diagnóstico de doenças e passaram por novos testes cognitivos.
Como resultado, entre os participantes com menos de 60 anos, o uso de adoçantes foi associado com declínio cognitivo tanto em pessoas com ou sem diagnóstico de DM, enquanto nenhuma associação foi observada nos indivíduos com idade ≥ 60 anos.
Apesar da relevância do estudo, os próprios autores relatam que este é apenas um estudo observacional que pode apenas mostrar uma associação estatística, não uma relação direta de causa e efeito. Isso porque, como em todas as pesquisas desse tipo, os resultados podem ser influenciados por muitos fatores de confusão, incluindo padrões alimentares gerais, escolhas de estilo de vida e outras condições de saúde.
Além disso, o consumo dos adoçantes foi avaliado por questionário de frequência alimentar semiquantitativo apenas no início do estudo. Os participantes preencheram os questionários sozinhos, possivelmente sem precisão no tamanho das porções, o que pode superestimar ou subestimar as quantidades. Além do questionário perguntar sobre a frequência diária/semanal/mensal do consumo dos alimentos, não permitindo o registro de preparações, o que pode não capturar mudanças em longo prazo ou mostrar com precisão a exposição aos adoçantes.
Apesar do ajuste para diversos fatores clínicos e de estilo de vida, os testes cognitivos foram aplicados com diversas limitações e não houve dados de neuroimagem, limitando a capacidade de fazer hipóteses sobre as alterações estruturais cerebrais e os mecanismos que possam explicar as associações entre a ingestão dos adoçantes e o declínio cognitivo.
Por fim, o Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes publicou em 2025 a Contribuição Técnico-Científica Sobre Edulcorantes que pode ser lida em (https://diabetes.org.br/wp-content/uploads/2025/07/Edulcorantes-NT-FINAL.pdf) e descreve a segurança dos edulcorantes atualmente disponíveis em território nacional, incluindo os descritos no presente estudo.
Referência: Gonçalves NG, Martinez-Steele E, Lotufo PA, et al. Association between consumption of low- and no-calorie artificial sweeteners and cognitive decline: an 8-year prospective study. Neurology. 2025;105(7):e214023.
